Simuladores: uns sobem outros descem

As cores da Força Aérea Portuguesa surgem nas opções de carreira dos pilotos virtuais de FTO – Combat Pilot

Como previsto por toda a gente excepto a Microsoft, o Flight aterrou  ou espetou-se no solo. Entretanto o Flight Simulator X promete ter mais acção. A Microsoft terá de repensar a sua estratégia no momento em que Combat PIlot entra no mundo de FSX.

Nem seis meses haviam passado desde o lançamento do controverso Flight, e somente algumas semanas após o lançamento de uma primeira expansão para o programa, quando a Microsoft “aterrou” a simulação, confirmando o que toda a gente, ou pelo menos a maioria, dizia: o projecto era um beco sem saída. Um beco sem saída muito estreito e curto que deixou algumas pessoas sem o dinheiro investido e sem saberem o que fazer de seguida.

É necessário, de facto, estar muito a leste do mercado para ter feito o que a Microsoft fez. Esta é a minha opinião e fundamento-a no conhecimento que tenho de escrever sobre o mercado de jogos desde os tempos do Spectrum, o que me dá alguma base para afirmar o que digo: não existe no mercado de jogos interesse q.b. para alimentar uma simulação de voo em jeito de arcada, para todos. Independentemente de o Flight ter algumas coisas positivas e mesmo sérias, a verdade é que a meta da Microsoft não era o público do FS mas outro, o dos jogadores casuais. Bastaria ver como os jogadores casuais pegam no FS nas demonstrações públicas para perceber que Flight não ia sequer fazer mais do que um voo rasteiro. Esse tipo de utilizadores quer uma de duas coisas: ou voar um grande avião de carreira comercial, para o espetar logo de seguida, ou pergunta, candidamente, “como é que se dá tiros?”.

O FS existe para um público que gosta de voar, de usar os instrumentos de navegação , de misturar o combustível, de ver a paisagem sob as asas, de pensar que está lá em cima, em pequenas ou grandes aeronaves. Ou são apaixonados pela aviação ou são pilotos ou outros profissionais da área que encontram no FS uma extensão do prazer de voar. O voo online com sistemas de controlo de tráfego e com outros pilotos, e mesmo o voo solitário mas com uma simulação de contacto rádio – e existem algumas boas expansões de FS para isso –  são o que essa gente gosta. E algo que faltava em Flight, que, escrevi numa peça no meu website Videojogos há meses,  Air Grinding and Emptiness era um cenário  desértico e de grinding. Grinding é uma actividade própria de muitos jogos online, em que se repete uma actividade muitas vezes para ganhar pontos. Ora a ideia dos Aerocaches do Flight era isso mesmo. Isso e levar clientes num voo de quilómetros para comerem uma bifana… Sinceramente! Uma coisa é voar uma rota de que se marcaram coordenadas no FS, a outra andar a marcar pontos numa actividade repetida no Flight. Só podia dar para o torto. E deu.

Os servidores de Flight estão vazios. Se não havia muita gente no arranque agora são ainda menos, porque todos sabem que o projecto está morto. E mesmo se a Microsoft diz que vai manter os servidores activos, sabemos como estas coisas são. A empresa concebeu  Flight como uma máquina de fazer dinheiro – pensavam as inteligências que orquestraram esta catástrofe – e agora que se provou que o negócio não existe, os servidores não durarão muito. O pior de tudo isto é que uma série de gente perdeu empregos…  e se matou à nascença algo que até tinha aspectos positivos, como eu disse. Mas a Microsoft queria que a torneira pingasse logo desde o primeiro dia. Os mesmo cifrões que a levaram a matar o FS (pensavam eles) levou-os a desistirem de Flight. Parecem crianças cansadas de brinquedos. Infelizmente algo que começa a suceder muitas vezes no percurso de uma empresa que outrora admirei.

A Microsoft devia saber melhor. Mas não. Venderam o Flight Simulator à Lockheed, que agora está a vender o Prepar3D baseado no FSX, plataforma para que os criadores independentes de expansões se estão a encaminhar. Por isso mesmo o futuro do Flight Simulator parece brilhante, mesmo se não existem previsões de que um FSXI surja no mercado. A não ser que a Microsoft reencontre o caminho e perceba o que fez de errado.

O mais divertido de tudo isto é que, provavelmente, o Flight Simulator está a dar mais dinheiro à Microsoft do que o Flight alguma vez fez. O título continua a ser vendido como a escolha lógica para quem pretende divertir-se a voar virtualmente. E há coisas novas a serem lançadas constantemente para o FSX. Por exemplo, Flight Traning Operations, que depende do FSX para funcionar, e que pela primeira vez oferece aos pilotos virtuais a oportunidade de voarem com amigos online… e de os abaterem.

FTO – Combat Pilot vai fazer com que a Microsoft venda ainda mais unidades de um programa que “matou” logo após o mesmo fazer um quarto de século de uma saudável existência. Irónico, não é?

Temos tido algumas experiências de “tiros” em FSX mas nada como esta proposta da Mad Catz. Flight Training Operations – FTO é o primeiro passo de uma série online para múltiplos jogadores/utilizadores, designada Combat Pilot. FTO vai permitir voar missões de combate de diversa índole, a partir de bases em terra e porta-aviões, com vastos grupos de pilotos virtuais criando uma comunidade online. Concebido para funcionar em servidores dedicado,s FTO oferece um ambiente com capacidade de chat em tempo real, para comunicações, 25 nações para servir numa carreira como piloto virtual, treino seguindo os modelos de treino de pilotos militares dos Estados Unidos e todo um percurso que promete meses (anos) de pura diversão para quem se envolve com este tipo de programas de uma forma que nenhum jogador casual faz. É nesse patamar que FSX faz o seu melhor. E este FTO promete estender, assim, o potencial de FSX a uma nova área: a da aviação militar.

Se os programadores cumprirem todas as suas promessas, é um passo adiante para o FSX e para toda uma comunidade de pilotos virtuais que gostam da vertente de combate e têm, nos últimos anos, sentido a falta de opções. É verdade que existem novidades (e estou agora a testar um programa beta de que não posso falar, por questões de NDA, mas que é excitante…), mas descobrir esta outra faceta do FSX (que afinal a Lockheed também está a usar para treino militar) é uma boa notícia. E de novo divertido que através deste novo programa a Microsoft vá continuar a vender muitas cópias do FSX que deixou orfão, trocando-o por um sonho que dizia ser tremendo e acabou em pesadelo.

Para os pilotos virtuais portugueses em busca de algo de novo para fazer com o FSX, outra boa notícia é que o treino de combate de FTO – Combat Pilot não esqueceu a Força Aérea Portuguesa, pelo que é possível escolher as cores da FAP para fazer uma carreira de piloto virtual em treino nas diferentes bases norte-americanas, e depois nas missões de combate que se seguem. A seguir com atenção por todos os interessados.

Transfira para o seu computador o manual Combat Pilot – FTO Manual. E espreite o website de Combat Pilot para se manter a par das novidades.

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j.c.monteiro
8 anos atrás

É bom saber destas novidades 🙂 mas, quanto ao MS FLIGHT, para além de ser o melhor simulador GA algumas vez desenvolvido, há certamente muito por descobrir por detrás do que parecem ser as cinzas de um projeto morto…

Há certamente surpresas para o futuro, eu espero que sim, porque dificilmente algum simulador (bom, o X-Plane está a ajudar…) me entusiasmará tanto como este FLIGHT…. 🙂

Pedro Lima
8 anos atrás

Viva Zé Antunes! Mais um excelente artigo!

Já tinha ouvido falar deste ‘plug-in’ para o MSFS no seguimento de uma produtora que fez o F-18. Não sei se é a mesma, mas sei que pretendiam fazer algo semelhante.
Continuo a achar que a MS poderia trabalhar num Crimson Skies 2, ‘steamizá-lo’ ou ‘xboxizá-lo’. Penso que ganhariam o que não ganharam para o ‘target’ do Flight.

Abraço e bons voos! 😉